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Escola para Surdos: território de agenciamento cultural

Vanise Mello Lorensi*
Melânia de Melo Casarin**
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O presente trabalho objetiva analisar as contribuições da Educação Infantil da Escola Estadual de Educação Especial Dr. Reinaldo Fernando Cóser para o desenvolvimento dos alunos/as surdos/as pertencentes às famílias ouvintes. Os sujeitos investigados apresentam-se em dois grupos. O grupo 1, são três alunos surdos, de 04 a 05 anos, ingressos, pela primeira vez, na referida escola e sem contato com a língua de sinais e comunidade surda. Esse grupo foi observado, no contexto escolar, em situações variadas de interação com adultos surdos, utilizando-se da observação participada e do diário de campo. O grupo 2, são os respectivos pais, que também estão em contato inicial com a língua de sinais e comunidade surda. Para esse grupo, foi realizada uma entrevista semi-estruturada, visando conhecer à interação dos pais ouvintes com seus filhos surdos e com a escola. Resultados mostram que, entre os familiares ouvintes e alunos surdos, evidencia-se muitos conflitos pela falta do uso de uma língua comum. O desconhecimento e não domínio por parte dos familiares em língua de sinais, as trocas comunicativas são exercidas por sinais convencionados, não constituintes daquela língua, ocasionando um prejuízo lingüístico cognitivo para os filhos surdos. Através desta pesquisa, pode-se perceber que a escola constitui-se no ambiente favorável e necessário para o desenvolvimento lingüístico cognitivo para os alunos surdos. Espaço potencializado da sua cultura e construtor de identidade surda. Pode-se concluir que o processo de aquisição da língua de sinais para a pessoa surda dá-se pela interação com seus pares mais fluentes nesta língua.

Palavras-chave: Cultura. Surdos. Escola.

 
* Prof. da Rede Estadual de Ensino do Rio Grande do Sul.
** Profª no Dep. de Educação Especial, UFSM.

Escola para surdos: território de agenciamento cultural

Esse artigo discorre sobre a contribuição da Escola Estadual de Educação Especial Dr. Reinaldo Fernando Cóser para o desenvolvimento do aluno/a surdo/a pertencente à família ouvinte, sendo um recorte da Monografia do Curso de Especialização em Educação Especial no ano de 2005.

A referida escola é uma reivindicação antiga da comunidade de surdos e dos professores de surdos do município de Santa Maria e da região. A escola atua na Educação Infantil, Ensino Fundamental, Educação de Jovens e Adultos e Ensino Médio, com habilitação em Magistério, sob caráter experimental. Na referida escola, a língua de sinais, considerada a como primeira língua dos surdos, é parte fundamental do currículo.

Ao longo de minha trajetória profissional na educação dos surdos, observo nas famílias de alunos surdos ingressos na escola, insegurança em relação à educação de seu filho/a surdo/a, apresentando inquietações e dúvidas, em função de que ambos chegam à escola sem conhecimento da língua de sinais e da cultura das comunidades surdas.

A maior queixa, por parte dessas famílias, diz respeito às dificuldades de comunicação e de entendimento entre eles, visto que os pais usam a língua oral, e os filhos, por serem surdos, têm dificuldades de compreender e adquirir a língua de seus pais.

Alguns pais argumentam que se sentem despreparados para a tarefa de educar seus filhos em relação ao estabelecimento de limites e transmissão de noções de valores e de hábitos.

Conseqüentemente, isso gera um conflito na família, pois os filhos surdos adquirem uma língua, a língua de sinais, que não é a mesma de seus pais, oral-auditiva.

Esse universo familiar tão adverso lingüístico e culturalmente as necessidades dos alunos surdos, suscitam em mim o seguinte questionamento: qual a contribuição da escola para surdos no desenvolvimento dos alunos surdos pertencentes às famílias ouvintes?

A partir deste questionamento, a pesquisa teve como objetivo geral, conhecer a contribuição da escola para surdos para o desenvolvimento do aluno/a surdo/a pertencente à família ouvinte.

Caminhos percorridos

A investigação aqui apresentada trata-se de uma pesquisa na área das Ciências Sociais e Humanas, caracterizando-se como uma pesquisa qualitativa e descritiva.

Segundo Minayo:

nas Ciências Sociais existe uma identidade entre sujeito e objeto. A pesquisa nessa área lida com seres humanos que, por razões culturais, de classe, de faixa etária, ou por qualquer outro motivo, têm um substrato comum de identidade com o investigador, tornando-os solidariamente imbricados e comprometidos (1998, p.14).

Neste momento, passo a apresentação dos sujeitos que a comporam o universo investigativo.

O grupo 1 são três (03) alunos surdos, com idade cronológica de quatro a cinco anos, que foram observados no horário das aulas da Educação Infantil, matriculados na Escola Estadual de Educação Especial Dr. Reinaldo Fernando Cóser.

Devido ao contato diário e contínuo com os alunos surdos sujeitos dessa pesquisa (o grupo 1 de sujeitos), adotei, como instrumento de coleta de dados, a observação participada e diário de campo.
Para Feil:

a observação participante e de outros procedimentos que também são utilizados em outras metodologias de caráter qualitativo/interativo, ou seja, aquelas que garantem o convívio do pesquisador, no contexto natural com os atores sociais informantes, coparticipando de situações vivenciadas e construídas por eles no seu meio (1995, p. 7).

O grupo 2 de sujeitos da pesquisa é formado por um pai e duas mães de alunos surdos ingressos pela primeira vez na escola. Para este grupo, foi empregada a entrevista semi-estruturada, com perguntas abertas (versando sobre o relacionamento com seus filhos surdos, as representações sobre a surdez e os surdos).

O grupo 1 de sujeitos da pesquisa, serão denominados por “Luciana”, “Ana” e “Vinícius”. O grupo 2 de sujeitos foram denominados pela letra inicial de seus nomes e na ordem de seus respectivos filhos citados acima. São assim denominados: o sujeito “R”, o sujeito “G” e o sujeito “C”.

Dissertarei nesse artigo a análise feita sobre a categoria, Surdos na escola.

Faz-se urgente o aprendizado da língua de sinais pela família, pois o êxito no processo educacional da criança depende, em grande parte, das ações dos pais, por serem eles quem mantém o maior contato com a criança surda e influenciam na educação. Eles servem de modelo para seus filhos, e o aprendizado da língua de sinais irá reforçar os laços afetivos com seus filhos/as surdos/as.

Escola de surdos, os pares surdos

O estudo sobre a educação dos surdos atualmente suscita considerações à língua de sinais e compreende que os surdos têm uma cultura surda. Pode-se perceber a cultura surda como Perlin sugere:
Conhece-se e compreende-se a cultura surda como uma questão de diferença, um espaço que exige posições que dão uma visão do entre lugar, da diference, da alteridade, da identidade. Percebe-se que o sujeito surdo está descentrado de uma cultura e possui uma outra cultura. (2004, p. 76)

A partir desse ponto de vista, a cultura não é mais vista como herança, mas como um terreno de disputa política pela instituição de significados. Dessa maneira, os conceitos se alteram de acordo com as posições políticas e teóricas. Posições estas que se constroem nos (e pelos) discursos e representações culturais.

Ademais, a cultura utiliza a linguagem para produzir sentidos, representações sobre coisas e pessoas. Dessa forma, a linguagem também possui localização central no que concerne à legitimação de discursos e representações construídos culturalmente. Seguindo esta linha, Skliar (2003) afirma que a instituição social do “outro” como deficiente serve para assegurar a nossa própria normalidade, pois dificilmente diremos que somos ouvintes se não estivermos numa situação de comparabilidade com um surdo, por exemplo. Por isso, os Estudos Culturais e os Estudos Surdos salientam que a linguagem nomeia a identidade a partir da diferença. Quando uma pessoa afirma que é ouvinte, ela está, na verdade, assegurando o que não é, ou seja, surda.

Segundo Silva (1999 p. 133-134):

os estudos culturais concebem a Cultura como campo de luta em torno da significação social. A Cultura é um campo de produção de significados no qual os diferentes grupos sociais, situados em posições diferenciais de poder, lutam pela imposição de seus significados à sociedade mais ampla. A cultura é, nessa concepção, um campo contestado de significação. O que está centralmente envolvido nesse jogo é a definição da identidade cultural e social dos diferentes grupos.

A escola dos surdos faz-se um espaço de agenciador cultural, quando nela circulam sujeitos envolvidos com a comunidade surda, os quais desempenham suas atividades profissionais, como os surdos adultos, na função de educadores surdos, sendo usuários naturais da língua de sinais e membros da comunidade surda, atuando diretamente com os alunos nas atividades pedagógicas. Os professores e funcionários conhecem a língua de sinais e fazem uso dela. Os alunos dos cursos de língua de sinais, que a escola oferece para comunidade, na grande maioria familiares ouvintes, mostram-se interessados em compartilhar com a comunidade surda, inserindo-se no seu meio cultural.

O segundo aspecto analisado na pesquisa pode ser resgato aqui. Trata-se daquele que diz respeito ao interesse da família em aprender a língua de sinais. O sujeito “G” fala:

“gostaria de aprender a língua de sinais. Acho muito importante para entendê-la em casa. E aprender a lidar com ela. Ela vai aprender na escola e depois chega em casa e ninguém vai entendê-la”.
A mãe demonstrou que há necessidade do uso da língua de sinais para obter uma comunicação mais fluente com sua filha e para ter subsídios lingüísticos necessários a orientá-la nos diversos assuntos. De acordo com a mãe:

Leia o relato do sujeito “C”: “eu pretendo aprender a língua de sinais para poder explicar as mudanças da vida dele como da minha”. Ela demonstra preocupação com o seu relacionamento no futuro com o filho surdo, visto que necessita de uma comunicação em que ambos possam se entender. Ela tem uma angústia própria de mãe, que quer estabelecer um diálogo para com seu filho, explicando as situações vividas para ele.

Nesse magma de significações entre pessoas surdas e ouvintes efetiva-se a experiência intercultural que o ambiente escolar proporciona. Sobre esse movimento Perlin colabora:

A agência intercultural visa a convivência/diferença entre diferentes grupos e culturas. O trabalho intercultural permite construir para superar atitude de medo, constituindo uma disponibilidade para a leitura positiva da pluralidade social e cultural. (2006, p. 79)

Por outro lado a pluralidade cultural reforça a cultura surda, quando mostra a manifestação cultural dos surdos, suas singularidades, seus valores, a identidade surda, o papel da língua de sinais, o teatro surdo e a poesia surda.

A escola potencializa essas diferenças quando os alunos surdos convivem com os sujeitos que formam sua comunidade lingüística e cultural, sendo expostos à língua natural na interação no meio social, assumindo, segundo Góes (1999 p. 43), “a língua de sinais como primeira língua da criança surda que deve ser aprendido o mais cedo possível; como segunda língua está àquela utilizada pelo grupo social majoritário”.

A língua é um código lingüístico adquirido e compartilhado pelos membros pertencentes à mesma comunidade lingüística e cultural, na qual interage e comunica seus anseios comuns, entendidas como um sistema de signos verbais (na modalidade auditivo-oral para as comunidades de língua oral) e no caso dos surdos, a língua de sinais (na modalidade espaço-visual) em um processo de identificação imediato nas interações entre surdos com surdos, ou surdos da mesma idade, possibilitando a elaboração do pensamento, participantes ativos da construção do conhecimento, dos valores culturais e intelectuais. Nesse ambiente de transformação do sujeito surdo e conhecedor de si próprio que Perlin enfatiza:

estar consciente de si mesmo, em outras palavras, significa poder identificar-se, conhecer sua existência e elevar os padrões de auto-estima, construir suas estratégias para as relações de poder. O surdo que uma vez passa por processo de identificação ao seu igual certamente se motiva na diferença. O processo de identificação é complexo e se dá na proximidade do outro igual. (2006, p. 71 e 72)

Percepções como essa se mostra nas falas dos sujeitos observados na pesquisa. Com relação ao papel da escola para mudanças positivas nos relacionamentos familiares pode ser visto na fala do sujeito “R”:

“a ‘Luciana’ é uma criança que, quando entrou para a escola ela não sabia se comunicar direito, mas hoje nós vemos que ela mudou bastante. Ela fala e faz sinais, explicando-se melhor. Está aprendendo a língua de sinais. Percebo o retorno no seu desenvolvimento”.

Nesse depoimento, pôde ser visto que a “Luciana” estabeleceu trocas significativas com seus pares em situações interativas cotidianas na escola.

E o sujeito “C” declara:

“chega em casa feliz, contando coisas, e faz os sinais das letras. Sinto que meu filho está se tornando mais feliz, porque encontrou amor, carinho, atenção e respeito. Ele está cada vez mais carinhoso e aprendeu a dividir as coisas. Agradeço por tudo e vou fazer o possível para cooperar nesta felicidade”.

Nas famílias foram percebidas mudanças nas atitudes dos filhos em situações sociais, por possuírem suportes lingüísticos necessários para se comunicar.

O segundo aspecto analisado nesta categoria é a contribuição da aquisição da língua de sinais nas relações familiares. De acordo com o sujeito “G”, sua filha:

“está mudada, está mais calma. Quando está passeando com a família mostra-se educada. Coisa que antes não dava para sair de casa. Ir na pracinha então! Voltava para casa arrastada, gritando. Agora faço o sinal de ” acabou” e ela vem comigo, sem choro”.

E o sujeito “C” ao falar das mudanças de seu filho após a entrada na escola relata:

“chega em casa feliz, contando coisas, e faz os sinais das letras. Sinto que meu filho está se tornando mais feliz, porque encontrou amor, carinho, atenção e respeito. Ele está cada vez mais carinhoso e aprendeu a dividir as coisas. Agradeço por tudo e vou fazer o possível para cooperar nesta felicidade”.

Essas mudanças foram ocorrendo gradualmente, conforme o aluno se inseriu no ambiente escolar, no convívio em grupo social, nas inter-relações, adquirindo hábitos sociais e as mudanças refletiram no cenário familiar.

Diferentes olhares sobre as comunidades surdas apontaram nas últimas décadas a proposta bilíngüe da educação, comprometida com a educação lingüística/cultural dos sujeitos surdos, que se identificam na experiência visual, e na construção de uma história de lutas pelo reconhecimento sua diferença e de uma cultura.

Concluindo sem encerrar.

As considerações finais ratificam a contribuição da Escola Estadual de Educação Especial Dr. Reinaldo Fernando Cóser para o desenvolvimento dos alunos surdos, bem como para as famílias ouvintes.
Esta pesquisa comprovou que as crianças surdas chegam à escola sem uma língua para expressar seus sentimentos e seus desejos. Mas essa situação altera-se rapidamente, pois se percebeu que a criança, no contato com seus pares, adquire a língua de sinais, ao identificar-se com ela e usá-la fluentemente nas diversas situações de interação com colegas surdos e profissionais surdos que ali trabalham.

Conclui-se que os sujeitos desta pesquisa foram extremamente beneficiados pelo ambiente escolar, pois foi através desse universo que se iniciou o uso da língua de sinais, visto que não tiveram acesso e nem convivido com a comunidade surda antes ao ingresso na escola e após, estes efetivamente, apresentaram um notável progresso lingüístico.

O que se evidenciou, na análise das variáveis investigadas é que as famílias ouvintes mostraram, de forma significativa, dificuldades iniciais em se relacionar e aceitar a surdez em seu meio. No universo familiar, verificou-se um conflito gerado pela ausência de um código lingüístico compartilhado, que será superado no momento em que o filho/a surdo/a for realmente aceito por sua família ouvinte, e esta reconhecer o valor da língua de sinais e a necessidade de aprender essa língua para se comunicar com seus filhos/as surdos/as.

Aos poucos, após o contato com a escola, percebeu-se que a visão clínica e a representação em relação aos surdos se alteraram, inclusive em relação ao aspecto educacional, pois a família começou a perceber possibilidades, gerando perspectivas positivas.

Neste sentido, faz-se a urgência de informar as famílias ouvintes com filhos surdos, sobre a importância da língua de sinais para o desenvolvimento lingüístico e cognitivo dos mesmos. Constituindo–se essa língua no elemento potencial de identificação das comunidades surdas, pois o êxito no processo educacional da criança depende, em grande parte, das ações dos pais, por serem eles quem mantém o maior contato com a criança surda e influenciam na educação. Eles servem de modelo para seus filhos, e o aprendizado da língua de sinais irá reforçar os laços afetivos com seus filhos/as surdos/as.


Referências

FEIL, I. Pesquisa Etnográfica: ainda um mito para muitos. Cadernos de Pesquisa. Programa de Pós-Graduação em Educação/Universidade Federal de Santa Maria. Centro de Educação. n. 65 p. 01-29, Santa Maria, 1995.
GÓES, M. C. R. Linguagem, surdez e educação. 2 ed., Campinas: Autores Associados, 1999.
MINAYO, M. C. S. Ciência, técnica e arte: o desafio da pesquisa social. (Org.). In: DESLANDES, S. F.; CRUZ NETO, O.; GOMES, R. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 8. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.
PERLIN, T. G. O lugar da cultura surda. In: THOMA, A. da S.; LOPES, M. C. (Orgs.). A invenção da surdez: cultura, alteridade, identidades e diferença no campo da educação. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2004.
______. Surdos: cultura e pedagogia. In: THOMA, A. da S.; LOPES, M. C. (Orgs.). A invenção da surdez II: espaços e tempos de aprendizagem na educação de surdos. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2006.
SILVA, T. T. da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.
SKLIAR. C. B. Pedagogia (improvável) da diferença: e se o outro não estivesse aí? Rio de Janeiro: DP&A, 2003

Correspondência

Melania de Melo Casarin - Appel, 440/402 -Santa Maria – RS.
E-mail: melmelc@bol.com.br
Vanise Mello Lorensi- Rua Marquês do Herval, 25 apt.304 – Centro Cep:97060-430 – Santa Maria – RS.
E-mail: vanise2005@ig.com.br


Recebido em 31 de agosto de 2006
Aprovado em 11 de maio de 2007


 
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