... Revista Educação Especial :: edição: 2007 - N° 30 > Editorial
 
Editorial

Completar vinte anos de circulação de uma revista com linha editorial voltada para a Educação Especial requer que pensemos sobre o quadro da Educação Especial no momento de sua criação, sobre a trajetória de sua existência, sua vida futura.

O primeiro número da Cadernos de Educação Especial circulou em 1987. Nesse ano, a Universidade Federal de Santa Maria completava 27 anos, dos quais 25 anos de dedicação efetiva ao trabalho com Educação Especial, quer na formação de recursos humanos, quer no atendimento aos portadores de necessidades especiais.

Para que esta inquietação com a área da Educação Especial fosse concretizada em forma de ações conjuntas do meio acadêmico e comunidade em geral, integra-se a esse referencial histórico o apoio e incentivo do fundador da Universidade Federal de Santa Maria, o professor José Mariano da Rocha Filho. Por meio da criação do Instituto da Fala, pertencente ao Centro de Estudos Básicos da UFSM, o atendimento pedagógico e a preparação para a vida de crianças com necessidades educacionais especiais tornaram-se pautas cotidianas nesta Instituição.

Após implementadas novas habilitações no Curso de Graduação em Educação Especial, ano de 1984, os ingressos passaram a optar entre as habilitações Deficientes Mentais ou Deficientes da Audiocomunicação, o que fomentou a gênese de recursos humanos de milhares de profissionais qualificados para a área e que impulsionou a discussão e a perpetuação de correntes ideológicas inclusivas. Concretizada essa etapa, iniciou-se, no ano de 1994, o Curso de Pós-Graduação em Educação Especial em nível de Especialização, que promoveu o aprofundamento e a capacitação desses discentes.

Assim, vinte anos após a primeira edição da Revista de Educação Especial publicada, é possível apontar que, no âmbito científico dessas discussões, este caminho histórico dissertou e disserta sobre questões imprescindíveis na área, considerando o que já foi feito para elevar a qualidade da educação ofertada aos alunos com necessidades educacionais especiais, e o que se objetiva para o século XXI.

Hoje, quando apresentamos a Revista Educação Especial n. 30, completamos quarenta e quatro anos de envolvimento com está área, que vem avançando na produção de conhecimento e no grau de profissionalização de seus agentes.

Nos primeiros anos, foi difícil manter a Revista. Além de recursos humanos, financeiros, técnicos, faltava o fundamental: a matéria-prima de divulgação. As diversas atividades em ensino, pesquisa e extensão realizadas pelos professores do Departamento de Educação Especial, por professores e alunos do Centro de Educação, transformados em textos – artigos, relatos, resenhas – e mais a colaboração de profissionais e professores de outras instituições possibilitaram que a Revista editada obtivesse sucesso na veiculação de estudos, pesquisas e experiências na área, para abertura e ampliação de horizontes, para o aprofundamento de temas concernentes e para enriquecimento mútuo de todos os que se dedicam à Educação Especial.

A Revista Educação Especial é distribuída hoje para, aproximadamente, duzentas instituições brasileiras. Recebe colaboração de pesquisadores nacionais e internacionais. Recebeu classificação, na avaliação qualis, coordenada pela CAPES, como periódico C-Nacional.

Mantemos periodicidade, estamos conseguindo melhorar a qualidade gráfica e a distribuição e, sobretudo, estamos agregando mais qualidade.

A proposta editorial da Revista continua sendo a de veicular a produção acadêmica inédita de pesquisadores em Educação, prioritariamente daqueles trabalhos mais diretamente vinculados com a Educação Especial, de forma a ampliar discussões sobre políticas públicas, demanda, formação de professores e temáticas emergenciais.

Na 30ª edição, a Revista Educação Especial constitui-se de uma coletânea de artigos que buscam aprofundar questões teórico-práticas relativas à área de conhecimento da Educação Especial, abordando temas relacionados ao cuidado com a diferença, trabalho colaborativo no contexto da educação inclusiva, à formação docente, às relações interpessoais estabelecidas nesse processo e às experiências educacionais com alunos com deficiência, surdez, autismo e altas habilidades/superdotação.

Essa produção pretende configurar os pilares que sustentam a prática educacional inclusiva. Assim, a disseminação de conhecimentos produzidos na área da Educação Especial pretende problematizar concepções, indicar possibilidades de atuação pedagógica e, sobretudo, socializar conhecimentos que contribuam ao processo formativo dos profissionais envolvidos com a Educação.

Nesta edição da Revista, apresentam-se oito artigos pautados por experiências diversas em Educação Especial e que serão brevemente dissertados a seguir.

O artigo “O cuidado com a diferença”, de autoria de Marisa Faermann Eizirik, objetiva realizar uma discussão em torno da “diferença”, no qual a autora enfatiza a questão do cuidado e do necessário diálogo com o outro. Destaca a importância da intensificação de práticas inclusivas para acolher o “estranho”, potencializando o cuidado com a diferença, a fim de adquirir possibilidades insuspeitadas de aprendizagens.

“Ser educador(a) é ... (também) socializar inquietações”, de autoria de Sandra Marisa Allebrandt-Padilha, Maria Júlia Padilha Macagnan e Soraia Napoleão Freitas, objetiva proporcionar uma reflexão sobre questões candentes do cotidiano escolar. Têm o propósito de eleger algumas iniciativas que desafiam aqueles que desafiam ser protagonistas do ofício de “ser educador”.

No texto “Afetividade e socialização como elementos facilitadores de inclusão em atividades de ginástica acrobática”, Douglas Roberto Borella e Fatima E. Denari apontam o estudo realizado que teve por objetivo verificar o fortalecimento da afetividade e da socialização dos alunos com necessidades educacionais institucionalizadas e alunos da rede regular de ensino durante as aulas de Ginástica Acrobática, tendo a prática da inclusão como norteadora.

“Centros comunitários para desenvolvimento de talentos – O CEDET” é o artigo assinado por Zenita C. Guenther e que disserta sobre o trabalho desenvolvido no Centro para Desenvolvimento do Potencial e Talento (CEDET), que desenvolve um programa educacional para estudantes dotados e talentosos integrado ao sistema escolar.

Lúcia Maria Santos Tinos e Sabrina Fernandes de Castro são as autoras do trabalho “De Cadernos de Educação Especial a Revista Educação Especial: uma análise dos últimos 5 anos (2002 - 2006)” que aborda uma pesquisa realizada em um periódico na área de Educação Especial, com o fim de descrever o perfil geral dessa área.

Laura Ceretta Moreira e Sueli de Fátima Fernandes apresentam a pesquisa “Reflexões sobre o perfil e expectativas dos participantes do Prolibras no Estado do Paraná”, na qual discutem acerca de aspectos referentes ao Exame Nacional de Certificação de Proficiência em Língua Brasileira de Sinais, o Prolibras, no Estado do Paraná a partir de uma pesquisa realizada com os participantes no ano de 2007.

Tania Mara Zancanaro Pieczkowski apresenta um tema instigante, “Educação sexual de pessoas com deficiência mental”, salientando a importância da conscientização da sociedade, principalmente das famílias de pessoas com deficiência mental e profissionais que atuam com esse grupo, de modo a combater os tabus existentes quanto a sexualidade dessas pessoas com necessidades especiais.

Encerrando a Revista, Márcia Lise Lunardi e Fernanda de Camargo Machado apresentam o artigo “Discursos sobre a surdez: problematizando as normalidades”, no qual discutem as práticas de significação que cruzam diferentes formas de narração do binômio normal/ anormal no campo da educação de surdos a partir das representações de uma das pesquisadoras – na época, estagiária.

Enfim, os artigos deste número da Revista abordam aspectos essenciais na área da Educação Especial. Esperamos, dessa forma, que sirvam de referencial para debate e reflexão acerca de pressupostos atuais.

Soraia Napoleão Freitas
Presidente da Comissão Editorial

 


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