|
Notas
introdutórias
A
presença da disciplina Filosofia, no ensino
médio brasileiro, dependeu sempre da maior
ou menor simpatia de nossa elite intelectual por
esse tipo de saber. Diferentemente de outras disciplinas,
as quais nunca são problematizadas a respeito
de sua presença ou não nos currículos
oficiais, a Filosofia, quando convidada
a integrar o currículo, carece de uma razoável
carga horária. Entende-se como suficiente
uma ou duas aulas semanais, durante um ano da
escola média, para que o aluno se aproprie
da tradição filosófica e/ou
desenvolva a atitude de reflexão filosófica,
como forma de tornar-se um cidadão crítico
e engajado em seu tempo.
No
ano de 2001, a discussão acerca da importância
dessa disciplina, ao final da escola básica,
voltou à cena, a partir da aprovação,
no Congresso Nacional, do Projeto de Lei n. 3178/97
que tornava obrigatórios os ensinos de
Filosofia e de Sociologia, no ensino médio.
No entanto, no momento decisivo, o projeto foi
vetado pelo Presidente da República, sob
a justificativa de que não teríamos
professores de Filosofia suficientes para atender
as demandas que se abririam.
No
entanto, apesar da derrota, instaurou-se positivamente
um processo de reflexão sobre o ensino
de Filosofia, suas exigências, dificuldades,
forma e conteúdo. E mais, dentro de um
contexto nacional de discussões e de novas
políticas para a formação
de professores, passou-se a discutir a formação
inicial do professor de Filosofia dentro de um
curso que, mesmo sendo de licenciatura, muitas
vezes enfatiza a formação para a
pesquisa, em detrimento da preparação
para a docência.
Filosofia
e seu ensino:
O
professor de Filosofia no ensino médio
é o parente pobre das matérias
científicas, o crítico da pequena
história política, o comentarista
dos fatos diversos da cidade, já
afirmava João Cruz Costa, em 1959. Atualmente,
o quadro em que se insere a Filosofia continua
problemático; por isso, algumas perguntas
são pertinentes: que prestígio tem
essa disciplina diante de um alunado que busca
no ensino médio o caminho para a aprovação
no vestibular ou, mesmo para àqueles alunos
que não poderão prestar vestibular,
porque deverão ingressar no mercado de
trabalho, como forma de sobrevivência? Qual
o sentido da Filosofia, quando o mundo está
mergulhado em questões de eficiência,
de resolução de problemas concretos,
de tecnologias avançadas capazes de produzir
cada vez mais informação em menor
tempo? O que pensa o professor de Filosofia sobre
a importância do saber filosófico
para seus alunos? Como ele se coloca diante dos
colegas, seus parentes ricos, das
outras disciplinas? Como despertar o interesse
de seus alunos pelas grandes questões da
Filosofia, pela tradição filosófica,
de maneira a não tornar o espaço
da aula de Filosofia apenas o espaço da
socialização de opiniões,
achismos, sociologismos e psicologismos? O que
cabe efetivamente ensinar numa aula de Filosofia?
Afirmar-se
que o objetivo do professor de Filosofia seja
colocar os alunos em contato com os clássicos
da Filosofia, com seus grandes temas, apoiados
na História da Filosofia pode parecer uma
idéia fora de lugar, desprovida de sentido
nesses tempos de globalização, de
novas tecnologias, de eficiência e competitividade.
Seria retomar princípios de uma formação
humanista/cultural da qual a escola tem lentamente
se afastado. Ainda há que supor que a importância
da tradição filosófica deva
ser acompanhada da valorização e
de um outro tratamento para as artes, a literatura
e as ciências, que parecem ter sucumbido
à imediatidade do real na escola básica.
Em
1955, Jean Maugüé, um dos professores
da missão francesa que constituiu
o Curso de Filosofia da USP, ao referir-se ao
ensino de Filosofia, alertava para o que significava
efetivamente ensinar Filosofia a partir de sua
história. Para ele, a história não
seria
uma
recapitulação de doutrinas, uma
espécie de lista de nomes ilustres aos
quais se distribuiria, segundo uma justiça
universitária, o elogio ou a censura. A
história da Filosofia consiste na retomada
do contacto, na comunhão com os grandes
espíritos do passado. Platão, Santo
Tomás de Aquino, Descartes, Espinosa ainda
são vivos nos seus textos. Causa surpresa,
e até indignação, observar
como quase em toda a parte se ensina a Filosofia
sem que se leiam os filósofos (1955, p.
645).
Contemporaneamente,
a lição é enfatizada por
GALLO & KOHAN (2000, p. 194) ao afirmarem
que:
a
experiência de pensamento filosófica
traz em si a marca da necessária remissão
à História da Filosofia. Não
se pensa filosoficamente sem o recurso a uma história
de mais de dois mil e quinhentos anos. Se a criação
conceitual deve ser feita sobre o vivido, ela
não pode deixar de lado as reflexões
já produzidas sobre ele. Mas a remissão
à História da Filosofia não
pode significar um retorno ao mesmo: essa remissão
deve ser essencialmente crítica e criativa,
e é aqui que a Filosofia se faz multiplicidade.
Retomar um conceito é problematizá-lo,
recriá-lo, transformá-lo de acordo
com nossas necessidades, torná-lo outro.
O diálogo com a História da Filosofia
é uma fonte de desvio, de pensar o novo,
repensando o já dado e pensado.
Da
mesma forma, Franklin Leopoldo da Silva destaca
que a História da Filosofia pode ser compreendida,
como centro ou como referencial. Tomar a História
da Filosofia como centro significa localizar
os sistemas e autores na ordem histórica
do seu desenvolvimento, visando a familiarizar
os alunos com os problemas e as formas de encaminhamento
das soluções ( 1986, p. 156).
Ocorreria, assim, um mergulho dos alunos, através
da orientação cuidadosa do professor,
na História da Filosofia, a partir do contato
com as idéias dos grandes pensadores em
suas respectivas obras. Entendida como referencial
pelo professor de Filosofia em suas aulas, a História
da Filosofia serviria para ilustrar temas que
se deseja abordar, pois os os temas são
tratados independentemente dos sistemas ou autores
levados em conta apenas na medida em que propiciam
os indispensáveis referenciais para a discussão
(Ibid., p. 159).
Deve-se
no entanto, evitar o uso enviesado desses dois
enfoques. Tomada como centro, muitas vezes a História
da Filosofia é apresentada aos alunos de
forma linear e seqüencial. E, como o tempo
que lhe é reservado na estrutura curricular
é pequeno, o professor não avança
além da Filosofia Antiga ou Medieval, por
exemplo. Por isso, quando chegam ao ensino superior
em alguma aula de Filosofia, os alunos indagados
sobre o que pensam e/ou estudaram sobre Filosofia
no ensino médio são unânimes
em afirmar que estudaram Sócrates, Platão
e Aristóteles, que a Filosofia é
o estudo daqueles homens e/ou, também,
é o estudo do SER. Constata-se, freqüentemente,
que o ensino da Filosofia, produz nos alunos a
imagem de uma grande lista de homens ilustres,
com idéias consideradas sem sentido ou
muito complexas para a sua compreensão.
Por
outro lado, a História da Filosofia pode
constituir-se no estudo de temas como ética,
política, epistemologia, por exemplo, sem
a devida contextualização e referência
histórica. Também, quando o professor
delega aos alunos a competência para escolher
temáticas a serem estudadas, como sexo,
drogas, amor, profissão, pode ocorrer o
desvirtuamento e a banalização da
disciplina. Tratar filosoficamente determinados
temas, articulando-os com questões filosóficas,
pode ser muito difícil para um professor
que não tome para si mesmo a Filosofia
como um exercício de reflexão constante.
A
Filosofia, por isso, não pode ser considerada
apenas mais uma disciplina do currículo
do ensino médio, cujo objetivo seria a
introdução do aluno na sua história.
Nesse sentido, para Franklin Leopoldo da Silva
(1992), a Filosofia, no currículo do ensino
médio, deve ter uma função
de articulação cultural.
Para assumir essa função, a Filosofia
não depende somente dela mesma, mas de
mudanças no currículo da escola
básica e, principalmente no seu ciclo final,
no que se refere à forma como as disciplinas
se relacionam e ao sentido dado aos conhecimentos.
Embora o ensino médio esteja em processo
de mudança, na tentativa de constituir-se
uma nova identidade, mantém-se a predominância
de um currículo voltado para o treinamento,
entendido esse como aquisição
de determinadas habilidades, através do
exercício repetido de procedimentos padronizados,
tendendo para a automatização de
mecanismo seqüencial (SILVA, 1992,
159). E mais, esse currículo aponta como
meta fundamental o adestramento para o vestibular.
A
superação desse modelo curricular
remete à idéia de formação,
enquanto
adequado
entrelaçamento da aquisição
de habilidades técnicas de elaboração
e identificação, de um lado, e o
reconhecimento da gênese e fundamento dos
procedimentos aplicados (...) Objetiva-se com
isso fazer com que a transmissão do conhecimento
se aproxime o mais possível de uma reprodução
da descoberta, do conhecer no sentido dinâmico
(SILVA, 1992, p. 159).
O
tratamento interdisciplinar das disciplinas possibilitaria
ao aluno a experiência de dar sentido ao
conhecimento, estabelecendo relações
com sua vida e a sociedade. Com tais conhecimentos,
seria constituída uma base cultural que
permitiria ao aluno relacionar os diferentes
conteúdos, aproximando-se daquilo que seria
em geral a experiência da cultura
(Ibid., p. 162). Assim, o desenvolvimento da disciplina
Filosofia, enquanto um pensar e repensar da cultura,
depende, em grande medida, das outras disciplinas,
que formam a base cultural da escola. É
sobre essa base cultural, como um sistema de referências,
que se constitui a reflexão filosófica.
Por isso, a presença e a tarefa da disciplina
Filosofia no ensino médio depende propriamente
de mudanças na forma como as ciências,
as artes e a literatura (a cultura) são
apresentadas e trabalhadas pelos professores.
Ao
professor de Filosofia cabe escolher: ele pode
centrar suas aulas sobre os conteúdos da
tradição filosófica, transformados
em problemas em seus contextos de construção.
O contato com a tradição filosófica,
no entanto, não se separa dos métodos
e procedimentos a serem utilizados pelo professor,
pois ensinar Filosofia é, também,
ensinar a filosofar. A reflexão filosófica
do aluno ocorrerá, se ele for perguntado
pelo texto, responder ao autor, for seu
discípulo e depois seu crítico.
(...) Essa didática especial (da Filosofia)
parece subordinada à matéria: uma
forma certamente que não se separa do conteúdo
(MORAES, mimeo, p. 3).
A
segunda possibilidade de escolha do professor
ocorreria a partir da ênfase
aos
procedimentos gerais de pensamento, entendidos
como princípios metodológicos da
atividade intelectual desenvolvimento das
capacidades de análise e leitura; de técnicas
de raciocínio e argumentação;
de métodos de questionamento; problematização
e expressão (FAVARETTO, 1993, p. 5).
Neste sentido o ensino de filosofia proporcionaria
aos alunos o desenvolvimento de habilidades fundamentais
para o exercício do filosofar, da reflexão,
da crítica, da argumentação.
Muitas
vezes entende-se que o desenvolvimento da capacidade
crítica dos alunos se desenvolve a partir
de discussões e polêmicas sobre questões
variadas e atuais em sala de aula. O fato de algum
aluno expressar uma opinião, um sentimento
sobre determinado tema a seus colegas e professor
pode, muitas vezes, significar para o professor
que ele está exercitando seu pensamento
crítico. No entanto, é importante
salientar que a crítica como processo
reflexivo, não é um conhecimento
expositivo, um saber positivo sobre o mundo e
muito menos uma percepção: é
uma interpretação, que exige perspectiva
de análise, sistemas de referência
e práticas discursivas adequadas
(Ibid., p. 3).
Curso
de Filosofia: a formação para a
docência
Já
em 1958, o professor João Cruz Costa, em
seu artigo A situação do ensino
filosófico no Brasil, lamentava a proliferação
avassaladora das Faculdades de Filosofia, Ciências
e Letras no Brasil e o seu fracasso na missão
de formar professores. Afirmava que, por
melhores que possam ser os programas, por mais
enfeitados que sejam, nada se fará se o
professorado não possuir uma base sólida
de preparo e consciência clara do seu trabalho
(Cruz Costa, 1959, p. 115).
As
reflexões sobre a formação
do professor de ensino médio, o professor
de Filosofia, continuam ainda hoje sendo feitas.
O que significa uma sólida formação
desse professor? Como os cursos de licenciatura
em Filosofia têm-se posicionado acerca das
questões relativas ao ensino e à
escola, uma vez que têm como tarefa formar
professores para atuarem nas escolas? Qual o prestígio
que o ofício de professor possui nesses
cursos?
Uma
rápida leitura do surgimento dos cursos
de formação de professores, para
atuar no nível secundário no Brasil,
aponta o seu histórico desprestígio
em relação à formação
para a pesquisa, e a classificação
de tais cursos como sendo de segunda categoria,
no contexto geral das universidades. Diante dos
demais cursos de nível superior, que formam
profissionais liberais e pesquisadores, os cursos
de licenciatura estão entre os que apresentam
o menor número de candidatos por vaga no
vestibular, com índices de aproveitamento
inferior. Como afirma António Nóvoa
(1998, p. 30), referindo-se aos preconceitos com
relação à profissão
de professor, para o ensino iriam apenas
os medíocres, os incompetentes e os falhados.
Tornar-se professor de Filosofia, ou de qualquer
outra disciplina, acaba sendo entendido como um
prêmio de consolação;
a única profissão que poderia ter
o aluno menos competente.
Nossos
cursos superiores de Filosofia, com honrosas exceções,
não cultivam os espíritos com vocação
de educador e desestimulam a dimensão educacional
da Filosofia. Ao mesmo tempo, promovem uma divisão
do trabalho, altamente prejudicial para a própria
Filosofia: uma seria a natureza lógica
da produção do saber filosófico,
e outra seria a lógica da circulação
do saber filosófico. Tal distinção
impede a compreensão da lógica intrinsecamente
educativa da Filosofia, que faz parte dela mesma,
através de toda sua história, nos
seus textos, na sua prática (Gallo &
Kohan, 2000, p. 181).
Estabelece-se
uma hierarquia das profissões dentro do
campo acadêmico: de um lado, os pesquisadores,
de outro, os professores. Tal hierarquia é
ratificada pelas políticas assumidas por
muitas universidades brasileiras que, historicamente,
deixaram sempre para segundo plano a questão
da formação de professores. Em 1986,
Luis Carlos de Menezes afirmava: a Universidade
tem aceitado formar professores como espécie
de tarifa que ela paga para poder fazer ciência
em paz. A Universidade tem que assumir a formação
do professor como tarefa, como uma de suas tarefas
centrais (p. 120).
Ao
serem indagados sobre sua ação docente,
muitos professores de filosofia que atuam nas
escolas de ensino médio de Santa Maria
destacam a dificuldade dos cursos em prepará-los
para a docência, e afirmam que se tornaram
professores no dia-a-dia de seu trabalho, por
tentativa e erro. A construção de
seus saberes sobre a profissão é
decorrência da necessidade de sobrevivência
profissional, quando o professor deve dar provas
de sua capacidade, e tais saberes se transformam
muito cedo em certezas profissionais, em truques
de ofício, em rotinas, em modelos de gestão
da classe e de transmissão da matéria.
Obviamente, a profissão compõe-se
também de saberes profissionais adquiridos
após a formação inicial,
mas aceitar que a prática tenha seu momento
apenas ao final do curso de graduação,
no período do estágio supervisionado,
quando o aluno então procura aplicar
os conhecimentos adquiridos nos períodos
anteriores de seu curso, significa manter um modelo
de formação docente sustentado em
uma racionalidade técnica.
Estaria
o professor de Filosofia convicto de que o sentido
da disciplina Filosofia no ensino médio
seria o de articuladora da formação
cultural? Talvez, marcado por algum tempo
de prática docente permeada de desafios,
de ansiedade, de dificuldades de auto-afirmação
no espaço escolar, o professor efetivamente
considere essa proposta, antecipadamente, um fracasso.
Por isso, a decisão de trabalhar com temas
isolados, mais atrativos aos alunos e ligados
a questões do cotidiano, sem uma referência
à tradição filosófica,
dentro de uma pedagogia da facilitação,
apresente-se como mais viável.
Mesmo
sendo o estado do RS avançado no sentido
de possuir a disciplina Filosofia na maioria das
escolas de ensino médio, é preciso
avançarmos, ainda, na construção
de seu prestígio e sua valorização,
através de um tratamento cuidadoso e rigoroso
dos conteúdos na sala de aula. Isso cabe
ao professor de Filosofia, profissional que recebeu
uma formação específica,
durante quatro anos, em curso de nível
superior. No entanto, se essa formação
inicial muitas vezes desconhece a realidade do
ser professor de Filosofia, no contexto específico
da escola, é preciso construir espaços
de discussão e de estudo que possibilitem
ao professor a continuidade de sua formação.
A formação continuada deve ocorrer
na própria escola onde o professor atua,
mas também as universidades devem estar
dispostas a estabelecer elos de ligação
com as escolas, trazendo seus professores novamente
para atividades, cursos, seminários que
enfoquem suas dificuldades e alternativas de mudança.
Também será preciso um repensar
dos cursos de formação de professores
de Filosofia, no sentido de procurar identificar
e definir como o ofício de professor e
a preparação para a docência
são concebidos no currículo do curso,
por seus professores e alunos.
|