... Edição: 2004 - Vol. 29 - N° 02 > Editorial
 
Editorial

Aos nossos leitores e leitoras

É com muita alegria que estamos apresentando o presente volume da Revista Educação. A Revista está no Portal Capes, sendo acessada por pessoas do Brasil e do exterior.

A publicação de um Dossiê sobre o tema Formação de Professores e Profissionalização Docente é o resultado de um trabalho que foi planejado no início do ano 2004 e que se tornou possível pela participação colaborativa entre colegas pesquisadores e professores universitários do Brasil e do exterior.

Sabemos que uma das grandes linhas temáticas em foco na educação brasileira tem tratado dos desafios, teóricos e empíricos, que se constituem os campos da formação e da profissionalização docente. Sendo assim, apresentamos um número especial com treze textos selecionados de trabalhos externos da UFSM e artigos de professores e orientadores do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSM, da linha de pesquisa sobre “Formação, Saberes e Desenvolvimento Profissional”. Tratam-se de trabalhos inéditos que situam a discussão do ponto de vista da profissionalidade, das dimensões, da construção inicial, tendências e aprendizagem profissional da docência; das representações sociais na formação de professores; da autonomia e autoridade na docência; de práticas emancipatórias e investigação-ação na formação de professores; dos saberes docentes; das políticas públicas e alguns encaminhamentos em cursos superiores. São artigos que se intercruzam do ponto de vista teórico e tecem uma rede interpretativa ampla sobre a temática da formação e profissionalização docente.

O primeiro artigo “A (difícil) construção da profissionalidade docente”, de José Augusto Pacheco apresenta uma reflexão sobre a profissionalidade docente em função das políticas educacionais marcadas pelo discurso da competência e qualificação. Tece a importância de reconhecimento da pluralidade de saberes e da realização colaborativa numa comunidade de aprendizagem.

No texto “Profissão Docente: algumas dimensões e tendências”, Cláudia R. Bellochio, Eduardo Terrazan e Elisete Tomazetti apontam e refletem sobre algumas questões teóricas acerca da profissão e profissionalização docente, trazendo a discussão sobretudo para a situação brasileira. Analisam, com bases em Nóvoa, o processo de constituição da profissão docente no Brasil e recuperam como fonte o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. Apontam algumas tendências na questão da formação e profissionalização de professores no Brasil.

Em “Aprendizagem da docência: algumas contribuições da L.S. Shulman”, Maria da Graça N. Mizukami apresenta algumas das contribuições de L.S. Shulman referentes à compreensão de processos de aprendizagem profissional da docência. Parte de análises do autor, referentes ao paradigma de pesquisa sobre o ‘pensamento do professor’ e o ‘conhecimento do professor’. Com bases nestes, identifica dois modelos: o primeiro referente a conhecimentos da docência e o segundo ao processo pelo qual tais conhecimentos são aprendidos ao longo de processos formativos e do exercício profissional: a base de conhecimento para o ensino e o processo de raciocínio pedagógico. Ancorados nesses dois modelos e no conceito de profissão docente, são apresentados, na parte final, argumentos de Shulman em defesa da sistematização do corpo de conhecimento relacionado ao ensino sob forma de casa de ensino.

“Imaginário, representações sociais e formação de professores (as): entre saberes e fazeres pedagógicos” é o artigo assinado por Helenise S. Antunes, Valeska F. de Oliveira e Valdo H. Barcelos. O autor e as autoras estabelecem um diálogo entre as teorias do imaginário e a formação de professores (as). Apresentam uma breve retrospectiva sobre o campo da pesquisa em imaginário e suas contribuições para as pesquisas na formação de professores e relatam sobre trabalhos de pesquisa realizados nessa linha. Ao final, comentam sobre projetos que têm sido implementados no contexto do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Educação e Imaginário Social, cujo objetivo principal é promover uma aproximação entre as significações construídas sobre o que é ser professor.

Maria Isabel da Cunha, Ana M. R. Rigo, Carmem L. Pinto, Denise G. da Fonseca, Gildo Volpato, Sônia R. Fernandes e Vãnia M. Chaigar apresentam o texto “Autonomia e autoridade em diálogo com a teoria e a prática: o caso da profissão docente”. Referem que, para se constituir em uma profissão, o magistério precisa incorporar elementos que dão contornos próprios ao seu fazer e, especialmente, ser reconhecido como um campo portador de conhecimentos e saberes que identifiquem a profissão. Nesse contexto, os conceitos de autoridade e autonomia assumem proporções significativas porque estão ligados ao reconhecimento e valorização social que se atribui aos professores, numa inserção política e social.

Em “A construção do início da docência: reflexões a partir de pesquisas brasileiras”, Emília de Freitas analisa as principais características da construção do início da aprendizagem profissional da docência para as séries iniciais do ensino fundamental, reveladas por meio de resultados de pesquisas realizadas no Brasil, nos últimos anos. Propõe uma análise critica entre a produção da área e as políticas públicas educacionais que marcam a construção do início da docência. Destaca o trabalho colaborativo e a necessidade de revisão do conceito de reflexão.

O texto “Autonomia e conhecimento – algumas aproximações possíveis entre Antônio Gramsci e Paulo Freire a partir da análise de práticas emancipatórias”, de Cleoni Maria Barboza Fernandes e Solon Eduardo Viola reflete sobre o pensamento de dois pensadores do século XX, Freire e Gramsci, homens de tempos e legares distintos, mas relacionados por sentimentos e construções teóricas que em muitos pontos de afastam e em muitos se aproximam, mas media as relações humanas na direção de outra sociedade justa e solidária.

Cleonice Tomazzetti, Fábio de Bastos e Hugo N. Krug assinam o artigo “Investigação-ação e formação de professores: estratégias articuladores da prática formativa”. Neste texto, apresentam reflexões sobre como a investigação-ação tem sido reinventada, nos escopos da didática e da formação de professores, configurando-se concretamente como estratégia articuladora da prática formativa no âmbito universitário. Explicitam o desenvolvimento cíclico-espiralado implementado na formação de professores, mostrando o viável possível da proposta didático-metodológica. Concluem tecendo considerações teórico-práticas para a consolidação deste trabalho no âmbito formativo escolar.

O artigo “Formação do professor do ensino superior: um processo que se aprende?”, de Doris P.V. Bolzan e Sílvia M. de A. Isaia aponta alguns elementos essenciais para a construção de competências necessárias e desejáveis para a atuação docente no ensino superior. Os desafios são delineados a partir de duas questões centrais: (1) Como se aprende a ser professor?; (2) Como se constrói o conhecimento pedagógico necessário para este aprender? A partir de discussões apontam a importância da construção de uma rede de mediações capaz de propiciar a formação de professores vista como um espaço interdisciplinar de compartilhamento pedagógico e epistemológico, para a qual convergem os saberes da docência, a integração e a troca de experiências necessárias a essa formação.

Em “Saberes docentes de um novo tipo na formação profissional do professor: alguns apontamentos”, Yoshie F. Leite e Cristiano G. Di Giorgi enfocam a necessidade da formação do professor direcionar-se ao papel mais amplo que o professor e a escola são chamados a desempenhar nos dias de hoje. Apontam alguns dos novos saberes, essenciais para o professor realizar sua ação profissional em sentido mais amplo. Propõem idéias sobre como as instituições formadoras de professores poderiam trabalhar estes novos saberes.

O artigo de Elizabeth D. Krahe, “Licenciaturas e suas modificações curriculares: as determinações legais do MEC – BR e os currículos da UFRGS”, discute o desenvolvimento dos trabalhos de reformulação curricular das licenciaturas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, trazendo a experiência construída com a pesquisa “modificações curriculares decorrentes da LDBEN nas licenciaturas da UFRGS”. A análise, segundo a autora, está indicando a convivência atual da utilização de pressupostos progressitas, como o modelo de integração, de racionalidade prática, com propostas enraizadas numa racionalidade técnico-instrumental, traços ligados a uma sociedade conservadora ainda presentes nos currículos em estudo. Finalizando, apresenta uma estrutura curricular que tem orientado as reformas na UFRGS.

Oswaldo A. Rays é o autor do trabalho “Formação de professores: uma alternativa de dinâmica curricular”. No texto, sintetiza uma alternativa de dinâmica curricular em andamento, elaborada entre os anos de 1999 e 2002, para a formação de professores. A referência epistemológica baseia-se nas inferências derivadas da Diretrizes Curriculares para a Formação de Professores da Educação Básica e das Diretrizes Político-Pedagógicas do Centro Franciscano de Santa Maria.

Encerrando o Dossiê, o texto de Edith M. Sudback, “Mapas da formação docente pós-LDB: regulação ou emancipação” relata uma pesquisa que analisa com base no projeto socioeconômico em vigor no Brasil, as tendências que são projetadas nas reformas da formação de professores. A partir de uma abordagem cartográfica, analisa os mapas normativos oficias representados pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996), pelo Plano Nacional de Educação e pelas Diretrizes Curriculares para a Formação de Professores da Educação Básica. A pesquisa reforça a necessidade de construir novos mapas, os quais sejam portadores de novas frentes de diálogo, de utopia e emancipações.

Agradecemos imensamentos aos colaboradores desse número. Esperamos que os nossos leitores e leitoras tenham uma prazerosa leitura. Reiteramos o convite para que sejam enviados artigos ou resenhas para publicação na Revista Educação CE/UFSM.

Cláudia Ribeiro Bellochio
Presidente da Comissão Editorial


.