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RESENHA DE LIVRO

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2004.

Ana Elisa Ribeiro*

De maneira didática e acessível, a obra Da fala para a escrita – atividades de retextualização, do professor da Universidade Federal de Pernambuco, Luiz Antônio Marcuschi, ocupa-se, principalmente, em desenhar brevemente a história do pensamento sobre fala e escrita (ou oralidade e letramento), suas dicotomias e seus paradigmas, além de definir o conceito e apresentar atividades de retextualização, o que pode ser de interesse especial para o ensino de língua materna, produção de texto e oficinas de redação.

Formado por dois ensaios sobre o tema, o livro oferece, na primeira parte, conceitos importantes tais como o de letramento e o de oralidade. O autor traça esclarecedoras linhas de pensamento sobre tais conceitos e reflete sobre as implicações de se assumir uma ou outra postura. Para ele, são inválidas dicotomias que polarizem fala e escrita, o que é vastamente exemplificado ao longo do texto. Marcuschi aponta teorias de caráter dicotômico, culturalista, variacionista e interacionista sobre os modos de interação fala e escrita e defende, de maneira enfática e persistente, o continuum entre as duas modalidades com argumentos plenamente convincentes.

Na segunda parte, Marcuschi mostra pesquisas que investigaram a retextualização como prática de produção de textos, especialmente quando se transcodifica ou adapta o texto oral para o texto escrito. Na obra, o autor não aborda a reescrita de textos (do escrito para o escrito), opção justificada, mas que não deixa de dar ao leitor certa sensação de frustração, já que estas parecem ser, também, atividades riquíssimas e abundantes para a aula de língua portuguesa. Neste capítulo, Marcuschi também mostra atividades de retextualização que podem ser inspiradoras para todo profissional que lida com a língua, indo além do professor de Português ou de Produção de Texto. As reflexões do autor servem também para quem atua na edição de textos ou mesmo na revisão, comunicadores sociais ou tradutores, uma vez que são tratados aspectos como a adequação dos registros, os objetivos e os níveis da intervenção e as operações do retextualizador à medida que trabalha no texto original. Muito embora o foco da obra não tenha sido esse, outros profissionais de escrita podem se apropriar da discussão e refletir sobre seus fazeres.

Ainda que a obra ofereça exemplos interessantes ao pesquisador e seja sugerida aos que se interessam pelo texto, ao menos apresenta dois pontos fracos: um deles diz respeito aos exemplos de retextualizações de entrevistas.

Marcuschi trata o gênero como algo homogêneo, quando, na atualidade, os instrumentos de coleta de uma entrevista podem diferenciar fundamentalmente os processos de produção do texto e suas operações de retextualização. No caso das entrevistas colhidas por meio de anotações, a retextualização se dá em pelo menos três níveis, além de partir, de fato, do oral para o escrito. No caso de entrevistas gravadas em fita magnética, a retextualização parte da transcrição, que pode ter níveis de proximidade com relação à fala, conforme os objetivos do jornalista (que rarissimamente são os mesmos do lingüista ou do professor de língua materna). Editores e revisores também farão leituras diversas dos exemplos oferecidos, o que só enriquece as possibilidades da obra. Já a entrevista por e-mail constitui-se em uma forma recente de abordagem do entrevistado e de coleta do material textual e, fundamentalmente, jamais foi falada. Trata-se de um meio amplamente empregado pelos jornalistas para obtenção de entrevistas, que começam e terminam por escrito, ainda que sofram transformações e edições após o retorno ao profissional de texto. Nesse aspecto, trata-se de um texto planejado pelo respondente, com chances de retextualização de nível bastante diverso de uma entrevista coletada face a face.

Outro ponto fraco da obra é a falta de atividades aplicáveis às salas de aula de alunos mais jovens. É elogiável que o autor marque bem as posturas preconceituosas do professor que oferece aos alunos apenas atividades de retextualização que parecem supor que a oralidade seja inferior ou pior do que a escrita, mas a obra frustra um pouco a expectativa de quem procura sugestões de atividades que reforcem as aulas do dia-a-dia para além desse tipo de atividade.

De qualquer forma, a obra inspira o profissional cujo objeto de estudo e/ou ensino seja o texto. Da fala para a escrita é, como quase toda a produção do Prof. Marcuschi, livro obrigatório nas escolas e, principalmente, nas estantes do professor de língua materna. Para outros profissionais da escrita, a obra pode oferecer um panorama dos paradigmas sobre o texto e ainda pode ser inspiradora da reflexão sobre o fazer profissional. No entanto, para ambos será necessária certa dose de iniciativa para que fundem seu próprio material didático a partir das propostas de Marcuschi e sem esquecer de pensar nas implicações de cada postura teórica que se adote.


Correspondência

Ana Elisa Ribeiro - Rua Princesa Leopoldina, 190 apto 302 - Ipiranga - Belo Horizonte, Minas Gerais - 31 160 – 120

E-mail: anaelisaribeiro@hotmail.com


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