... Edição: 2008 - Vol. 33 - No. 01 > Editorial
 
Editorial

Prezados Leitores!

É com imenso prazer que estamos apresentando o volume 1/2008 da Revista Educação. Informamos aos nossos leitores que a política editorial foi modificada em função de darmos maior agilidade e fluência de produção científica a nossa Revista. Assim, a partir deste ano, passamos a circular quadrimestralmente tendo como meta a produção de dois volumes tematizados ao ano e um de caráter mais geral. Para atender a esta nova política de circulação da Revista, algumas modificações também foram feitas no processo de submissão de artigos, o que consta nas normas de publicação anexas a este número.

No primeiro volume de 2008 a Revista Educação constitui-se pelo Dossiê Educação no Campo organizado pela Profª Drª. Ane Carine Meurer e por textos de demanda contínua. A primeira parte apresenta nove textos sobre a temática, compondo o Dossiê. A segunda parte é constituída por outros três artigos de demanda contínua e que versam sobre diferentes temas da educação.

O Dossiê Educação do Campo foi organizado a partir do Grupo de Pesquisa em Educação e Território – GPET, envolvendo, na sua organização os professores Ane Carine Meurer, Cesar De David, Carmen Wizniewsky.

Entendemos que a organização do Dossiê – Educação do Campo - é fundamental para os educadores, sejam eles do campo ou urbanos, pois as reflexões ora apresentadas contribuem para que repensemos as nossas teorias e práticas.

Abrindo o Dossiê sobre Educação do Campo, o pesquisador Abílio Amiguinho nos presenteia com seu texto: Escola em meio rural: uma escola portadora de futuro? Nesse sentido, pergunta-se sobre a possibilidade da escola rural participar da construção de uma nova ruralidade. Na pesquisa realizada em uma determinada região de Portugal ele apresenta e analisa o envolvimento das crianças, professores e comunidade na compreensão dos problemas locais, significação da função da escola e das relações dos habitantes da comunidade. Entre muitos outros aspectos o trabalho abordado desenvolveu-se em um processo de formação comunitária mediada pela escola.

Rui Canário nos brinda com seu texto: Escola rural: de objecto social a objecto de estudo. Argumenta que o rural apresenta-se enquanto espaço-tempo de resistência ao sistema capitalista, podendo construir alternativas ao mercado, pois defende a diversidade social, os valores e modos de vida não fundados na acumulação e no lucro. Nesse contexto aponta, em sua reflexão, que a escola rural encarada por muitos numa perspectiva de racionalização de custos pode ser transformada em um espaço-tempo de produção de novas práticas pedagógicas.

O terceiro texto: Educação do campo e escola itinerante do MST: articulações do projeto político-pedagógico com o contexto sócio-educacional. É autoria de Ane Karine Meurer e Cesar De David. Nele, os autores trazem a experiência da escola itinerante dos trabalhadores rurais sem-terra que acompanha os acampamentos do MST em seus deslocamentos. O texto relata a experiência que um grupo de professores e estudantes das licenciaturas de Geografia e Pedagogia vinculados a UFSM têm com a Escola Itinerante e que objetiva refletir sobre as questões relacionadas a educação do campo e contribuir para a formação de professores comprometidos com a realidade brasileira, entre elas a dos sem-terra.

Antonio Munarim apresenta seu texto: Trajetória do movimento nacional de educação do campo no Brasil. Em um grande esforço procura sistematizar a história da educação do campo no Brasil. Destaca as várias ações humanas que fizeram emergir o que ele denomina de Movimento de Educação do Campo e chama atenção que, no Brasil, muito ainda temos que lutar no sentido de concretizar uma educação do campo que esteja realmente articulada as necessidades dos que vivem no campo. Acrescenta ainda que a escola rural permanece atrelada, em grande parte, aos interesses hegemônicos e os sujeitos que vivem no campo em sua maioria não se constitui em sujeito social coletivo.

O currículo e escolas do campo: questões político-pedagógicas em superação é o texto de Clesio A. Antonio. O autor discute a necessidade que as escolas do campo apresentam no sentido de reconstruírem um currículo seu e articulado com um projeto social do campo. Nesse sentido o autor aponta que o currículo refere-se a organização do conhecimento trazendo implícito a ele valores, sentimentos, racionalidades. Portanto, cabe ao currículo das escolas do campo repensarem a estandardização do currículo escolar legado da escola moderna, pensando-a criticamente a partir do campo.

O autor Fernando José Martins nos apresenta o texto: Organização do trabalho pedagógico e Educação do Campo. Ao escrever o artigo procura definir a educação do campo frisando a necessidade que os sujeitos ligados a terra tem em construírem a sua identidade sociopolítica. Propõem ainda que o ingresso e a carreira para os educadores do campo seja restrita de tal forma que não haja mais professor urbano trabalhando no campo. Segundo ele essa proposta equacionaria vários problemas que essa escola enfrenta, entre eles, a organização dos tempos educativos. Ressalta ser fundamental a efetivação de políticas públicas que venham a estimular a escola do campo, pensando-a como espaço-tempo produtor da sua existência (produção agrícola e cultura camponesa).

As autoras Naira Estela Roesler Mohr e Célia Regina Vendramini nos apresentam o texto: A formação técnico-profissional no contexto do MST. As autoras tem como base para reflexão a experiência do Curso Técnico em agroecologia desenvolvido em um Assentamento no estado de SC. Explicitam várias contradições que se apresentam no curso técnico profissional, mesmo quando esse têm o propósito de romper com os interesses mercantis que, historicamente, tem associado-se a essa formação.

O artigo Educação profissional rural: formação técnica de Silvana Maria Gritti contribui com a discussão a respeito da educação agrícola, para tanto, a autora faz um resgate de sua legislação e história. Nesse contexto a autora conclui que as mudanças e reformas não vem ao encontro das aspirações das populações agrícolas, mas para a tender as necessidades hegemônicas do desenvolvimento econômico.

Sonia Aparecida Branco Beltrame e Yolanda Zancanella contribuem com o Dossiê com o artigo: “Os desafios da formação dos educadores que atuam no campo”. As autoras discutem o Curso de Pedagogia para Educadores do Campo realizado no estado do Paraná. Os estudantes tinham ligação com os movimentos sociais do campo, educadores das escolas do campo. Ficou evidente a discussão que a proposta do curso provocou na universidade o que possibilitou as autoras discutirem, entre outros aspectos, a função social da universidade e a responsabilidade que essa instituição tem em formar também os educadores do campo.

Na segunda parte da Revista apresentamos artigos de demanda contínua. Elison Antonio Paim, Maria K. Schneider e Noeli Candatem são os autores do artigo “Terra e escola: duas faces da mesma luta”. Trata-se de uma pesquisa historiográfica na qual se procura destacar a resistência e exclusão de um grupo de professoras do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST, em assentamento do município de Trindade do Sul, no Rio Grande do Sul; o confronto da Rede Estadual de Ensino e a comunidade de assentados na luta pelo programa de ensino a ser desenvolvido na Escola Estadual de Ensino Fundamental Marli Rissotto Zanchet. Historiciza-se a luta pela conquista da terra e da escola pelo grupo de pais, professores e alunos.
Em “Representações de surdos/as em matérias de jornais e revistas brasileiras”, Carolina Hessel Silveira discute acerca das lutas dos surdos pelo direito de se representarem não como deficientes, mas como sujeitos com uma cultura própria, tendo Libras como primeira língua. A autora analisa matérias e anúncios de jornais e revistas brasileiras variadas, desde 2004 até 2006, com notícias ou informações sobre surdos. As análises mostram que existem desafios sociais para que os surdos sejam reconhecidos em sua cultura específica, como sujeitos integrais e não como “excepcionais”.

“Das infâncias plurais a uma única infância: mídias, relações de consumo e construção de saberes”, de autoria de Joice Araújo Esperança e Cleuza Maria Sobral Dias é o texto que encerra este volume. O artigo apresenta uma pesquisa desenvolvida com um grupo de crianças, com o objetivo de investigar as interações que os telespectadores infantis estabelecem com as produções televisivas. Ao identificar brincadeiras, desenhos e narrativas orais e escritas privilegiadas pelas crianças, os autores percebem que elas constroem concepções de natureza, gênero, violência e consumo sob influência dos desenhos animados e seriados, aos quais elas têm acesso. Ao final, considera-se que pensar as infâncias no contexto da contemporaneidade requer considerar o predomínio da linguagem visual e o papel das corporações da mídia nas experiências extra-escolares das crianças.

Finalmente, a resenha de autoria de Lucinéia Luzaretti encerra a Revista trazando contribuições da obra “Quem tem medo de ensinar na educação infantil? em defesa do ato de ensinar”.

Ao finalizarmos este editorial, gostaria de agradecer à professora Ane Carine Meurer, pela organização deste Dossiê de Educação no Campo. Esperamos que o nossos leitores tenham uma ótima leitura. Reiteramos o convite para que sejam submetidos artigos e resenhas para futuras publicações da Revista Educação CE/UFSM. Visitem nosso sete: <http://www.ufsm.br/ce/revista>.

Profa. Dra. Ane Carine Meurer
Organizadora do Dossiê Educação no Campo

Profa. Dra. Cláudia Ribeiro Bellochio
Presidente da Comissão Editorial


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